Música sim, pessoas não
Não tem coisa pior do que relacionar uma música a alguém. Pior ainda se forem várias. O fim do mundo se forem boas músicas que serão jogadas no lixo pra você que não mais suporta ouvi-las por lembrar de alguém que não queira. Devíamos ter mais respeito pela arte. E principalmente mais respeito pela que gostamos.
Eu admito, já deixei de enviar uma música que seria perfeita para a situação e para a pessoa por ter respeito por ela, a música, e pelo o que ela era pra mim. E olhe que eu gostava muito dela, da pessoa. Na verdade, foi mais de uma vez. Depois das oportunidades fiquei com remorso, achando que o que deveria ter feito era mesmo homenagear a amada e que a arte que se danesse e viva às pessoas. Mas um futuro não muito distante, mesmo, me confirmou que havia agido certo, de forma correta, mais que abalizada. Todas as vezes.
A música, nessa forma que costumamos ouvir e "homenagear", a que "não se perde na execução", a gravada, a que quando ouvimos sempre é do mesmo jeito, não nos decepciona. As pessoas sim.
O máximo que pode acontecer é enjoar dela um pouquinho, mas logo depois se morre de saudades e corre pra ouvi-la de novo, para se reconfortar, receber uma carícia dela ou uma paulada se preferir.
Com a música a gente pode acreditar, por fé, que ela vai te retribuir. Vai te fornecer as mais diversas emoções que você puder sentir, basta só um pouco de atenção que ela é prestativa, não esquece de você e a trata da forma que você gostaria de ser tratado.
Com as pessoas, quando você começa a confiar de novo, recomeça a achar que vale a pena se entregar realmente pro outro, quando você começa a minar com a idéia de que o mundo seria, como foi exageradamente dito uma vez, "triste, frio e cruel", que o ser humano, com o seu super-poder que é o sentimento pelo outro, vale sim o mundo que habita... aí então... põe tudo a perder. Já era.
A música não. A arte não. E relacionar algo dessa natureza a alguém é torná-la odiosamente imperfeita, fazendo-a herdar toda a sua pobreza, desequilíbrio e características impuras.
Cada vez mais entendo porque a sociedade atual é tão superficial em suas relações com o outro e principalmente com seus companheiros(as). Estão cansados de verem os outros se agredindo silenciosamente e de si próprios machucarem, tentarem se reerguer e tombarem de novo. Melhor mesmo seria deixar o sentimento egocêntrico do nosso tempo tomar lugar e nos servir de proteção.
Escrito por Ivo Brunet às 14h29
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Dia da criação
Quem precisa do domingo? (Ô dia infrutífero esse.) Já acordo de mal humor. Aquela lembrança desagradável que inevitavelmente surge. Será que sou o único? Aquela lembrança melancólica que vai influenciar seus pensamentos e ações todo o dia. A verdade inevitável que se aproxima irreparavelmente em sua direção e te faz inquietar ainda na cama.
O fim de semana entra no seu dia derradeiro e, como provocação, te apresenta uma cidade despovoada e triste, fazendo-se descobrir pelo lamento dos pássaros e das árvores que conseguimos ouvir tão nitidamente nesses dias.
Qualquer negação é inútil. Não consigo evitar o fardo que me traz esse entardecer. Tudo ganha uma conotação efêmera.
Às vezes consciente, me obrigo a aproveitar da melhor forma possível cada instante que me resta, mas nunca o consegui. Nessa minha natureza humana eternamente insatisfeita sempre poderia ter saído melhor.
Que então se inicie o escapismo.
Algo que me faça transportar, me desligar, ir a um outro nível. Que demande toda a minha atenção e que me faça esquecer... que não me permita lembrar o emaranhado que tentarei desatar no dia seguinte.
Que venha o cinema.
Que venha a música.
Que venham as letras, as pessoas, o amor.
Necessito de alguém para culpar, ou algo, ou ao menos o dia. Para me desviar. Para não racionalizar que com o passar dos anos desaprendi a buscar prazer em tudo... sempre.
Com sua bênção seu Vinicius, mas, para mim, domingo é o "dia da criação".
Escrito por Ivo Brunet às 18h11
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Long time no post...
2005 acabou, 2006 chegou. Tivemos um monte de feriados, aconteceram dezenas de coisas, e agora cá estamos, fim de junho, e em plena copa do mundo. Bussunda morreu ontem, o Brasil ganhou hoje, a vida continua.
E fazem quase seis meses que não aparece nada novo no Brain.Damage.
Então, antes que se complete o período de meio ano sem qualquer espécie de texto por aqui, resolvi postar qualquer besteira, só pra fazer volume. Legal, né!?
Bom, não é exatamente isso. O post de hoje é só pra avisar que, a não ser que ocorra algum motivo de força maior, como por exemplo abdução alienígena, terremoto, furacão, chuva de meteoros ou absoluta falta de criatividade, muito em breve teremos textos sendo periodicamente publicados aqui.
Por periodicamente, entendam "algo entre um dia e um ano de distância, mas provavelmente algo em torno de um mês entre um texto e outro".
Saudações Brain.Damagianas a todos vocês, leitores deste Blog. Todos os dois.
E vida longa ao Brain.Damage.
Escrito por Jorge Cavalcanti às 17h18
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MAIS TEMPO
Não havia mais tempo.
Ela era a melhor de todos os hackers, mas não havia mais tempo. Aquela invasão entraria para a história, e o mundo, como todos o conhecem não seria mais o mesmo, se ela conseguisse acessar o...
Olhou o relógio.
Ouvia às vezes barulhos que pareciam ser passos nas escadas, a polícia, os agentes secretos, não sabia. Mas eles não a pegariam... não... não eram eles, e ela amaldiçoava aquela fração de segundo perdida em pensamentos tolos. Estava tão perto! A maior entre todos os hackers e mudaria a história da humanidade!
Estava quase conseguindo, quase! E só precisava de mais tempo! Os passos! Olhou a porta... um barulho... não! Concentração! Poucos segundos, poucos segundos! Mas não vai dar tempo! O coração acelerado, os olhos vidrados, o suor no rosto, a maior, a maior, a maior entre todos os... agora! O tempo! Uma explosão, um efeito cegante de luz, um susto, um “Não!”... não havia mais tempo! Olhou o relógio... não havia mais tempo... ela deu um suspiro... não havia mais tempo! Meia-noite: o computador virou uma abóbora!
Escrito por Marinésio às 00h51
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Festa Estranha, com gente esquisita...
Aquela tinha tudo para ser uma noite normal. Sabe, mas é tudo mesmo. A lua estava no céu, naquele estágio que ninguém consegue dizer se está cheia ou não, mas que todos sabem que ela não está; as estrelas do céu, mas aparecendo só de vez em quando - o que me leva a perguntar por que as estrelas se escondem da gente, mas acho que isso não vem ao caso. Não tem nada a ver com a história.
O fato é que aquela deveria ter sido uma noite normal. Sim, normabilíssima. Dessas que você chega em casa do trabalho, tira os sapatos, fica andando de meia pela casa e ouvindo sua esposa reclamar da vizinha que não para de ouvir "É na sola da bota, é na sola da mão... bote um sorriso na cara e mande embora a solidão...", e dizer que não agüenta mais isso, e que quer se mudar dali. E então, você, ignorando de uma maneira carinhosa, "sim, querida, eu concordo. Mas não podemos nos mudar agora, você sabe", se senta na frente da tv e assiste o jornal, falando da conjuntura política do país.
Bem, eu estava voltando no meu carro - um carro modesto, mas bem conservado, que funciona bem a maior parte do tempo. Isso porque eu sou um cara cuidadoso, que prefiro cuidar sempre do carro a deixá-lo por aí, sabe? Justamente para ele não quebrar nos piores momentos. Como aconteceu naquela noite.
O pior é que eu resolvera fazer um trajeto diferente aquela noite. Estava justamente numa rua que eu achava que já havia passado por algum momento da minha curta vida, mas algo dentro de mim dizia que eu estava perdido. Eu devia confiar mais nessas coisas de intuição masculina.
A rua era escura, daquelas que tem um monte de postes de iluminação, mas cujas lâmpadas só funcionam ocasionalmente, seguindo provavelmente uma complicada relação entre a posição astral e a tabela de marés, resultando que elas raramente funcionam. E claro, não iriam funcionar quando eu estivesse ali.
Liguei os faróis, peguei o triângulo de sinalização, conforme todas as leis do trânsito. E só pra previnir, liguei também aquelas luzes que sempre ficam piscando, e que eu nunca aprendi o nome. Peguei o celular e disquei o número que estava no adesivo colado no porta-luvas, que era do reboque. Estariam chegando em vinte minutos.
Me tranqüilizei, e fiquei dentro do carro, com a porta aberta, e um pé no asfalto ainda quente àquela hora da noite. Engraçado, aquela rua não era movimentada. Por que diabos o asfalto estaria quente num horário onde até fazia um ventinho frio?, me peguei comentando com os meus botões.
- Bem, por que diabos eu não sei, mas esse lugar sempre foi esquisito. Asmodeus, muito prazer.
Ainda olhei para os botões da minha camisa, pensando que eles poderiam ter me respondido, e então eu realmente estaria louco. Mas então notei que um destinto senhor estava parado do lado de fora do meu carro, estendendo uma mão com unhas esquisitas, e usando roupas que pareciam ter saído de um guarda-roupa do século XIV.
Me apresentei, ele retirou um cigarro do bolso e me ofereceu num gesto silencioso. Engraçado, nunca fumei, mas naquele momento senti uma vontade enorme de experimentar. Peguei o cigarro entre os dedos - daquele jeito que eu sempre vi nos filmes e achava tão estiloso - e ele prontamente acendeu um daqueles esqueiros prateados, que devem custar uma nota.
- O que houve com o carro? - Hum, não sei. Apenas *cof cof cof* quebrou sozinho. Liguei pro reboque, acho *cof cof* que estarão chegando *cof cof* em breve. - Nunca fumou antes? - Bem, não realmente. Mas é... agradável.
O sujeito sorriu de um jeito quase imperceptível. E então eu consegui notar que o lugar inteiro estava mudando. O céu - se é que eu poderia chamá-lo assim - começou a mudar de tom, chegando a um vermelho que parecia ter saído de um daqueles filmes de terror de baixo orçamento. As tintas das paredes caíram de repente, e tudo parecia cheirar a tétano.
- Bem parecido com um filme que eu vi recentemente... - É. Eles fizeram uma pesquisa de campo. - Você está me dizendo que... Ah, bem, você só pode estar brincando, não é? - Claro. - uma pausa, que quase me tranqüilizou. - Que não. Vamos, ligue o carro. Vamos fazer um tour pelo meu lar. Mas conhecido como o Inferno.
Algo me dizia que se eu não ligasse logo o carro, ia acabar carbonizado como um pássaro que acabava de cair na estrada, com um grunhido alto e agudo. Esperei que entrasse no carro e girei a chave. Funcionou perfeitamente.
E lá estava eu, andando pelas ruas de um asfalto perfeito, apesar de um tanto quentes demais. No toca-fitas que já não funcionava tinha uns meses, tocava algo que parecia pop dos anos 80. Eu sempre achei que aquilo era coisa do demônio mesmo.
- Hum, eu achava que os buracos no asfalto eram coisa... de vocês. - falei, tentando quebrar o silêncio. - Não, não somos nós que fazemos chover. Além do quê, é muito mais prático matar pessoas com um asfalto bem conservado. - Hum, faz sentido... Mas... por que me trouxe aqui? - Porque você foi o azarado de estar no meu perímetro quando eu estava passando por perto. - Ah... Hum, mas eu vou voltar? - Ainda não sei. Apenas continue dirigindo.
Eu podia saltar do carro. Mas com certeza não saberia fugir daquele lugar. Minha esposa devia estar muito brava comigo, pois completávamos... quantos anos de casamento mesmo? Ou era o aniversário dela? Bem, não importa. Ela realmente ficaria muito brava comigo. E minha esposa brava com certeza era pior que qualquer outro demônio.
- Bem, sabe, é que eu tenho compromissos... sabe, minha esposa. Bem, é uma data especial, e nós íamos sair para jantar... e... - Ah, claro. Sexo. Eu entendo. Bem, você pode voltar aqui outro dia. E provavelmente será para todo o sempre. Então, terá muito tempo para conhecer tudo aqui.
E então o cenário mudou com a mesma rapidez. Estava na mesma rua escura e esquisita, e minha carona já não estava no carro. Mas as notas de "Jones, Jones, come doctor Jones, doctor Jones, doctor Jones wake up now..." ainda soavam na minha cabeça.
O carro funcionou, pelo menos isso. E eu voltei pra casa.
- Querido, que cheiro esquisito é esse na sua camisa? Parece enxofre...
Escrito por Allana às 10h35
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- Eca! - O que foi? - perguntou a garota, tomando apoio para subir na gangorra. - Aqueles dois ali, ó! - apontou o menino para um casal a alguns metros de distância - Eles estão se beijando! - E o que tem de errado nisso? - É... é... é nojento, oras! A gangorra subia e descia, levantando ora o menino, ora a menina. Algumas crianças corriam, brincando de pega-pega, enquanto outras subiam nas árvores de galhos mais baixos. Ao fundo, o choro de uma criança que acabara de ralar o joelho, acompanhado pela voz doce e melodiosa da mãe. - Olha só! Eles não param! Como eles agüentam? - Minha irmã diz que é bom. - respondeu indiferente a garota. - Uma coisa nojenta dessas não pode ser boa! - Vocês não pegam insetos com as mãos e ficam jogando na gente? Isso também é nojento, mas vocês gostam não é? - É... mas... mas é diferente, oras! - Diferente? Por quê? - Você faz muitas perguntas, sabia? - desconversou o garoto. Droga, ela era mais esperta que a maioria das meninas. E não tinha medo de insetos. - É porque eu sou curiosa. Pelo menos é o que minha mãe diz. - E o que é ser curioso? - Ah, sei lá. - deu de ombros a garota. - Olha, eles estão indo embora! Que bom! - É. Agora eles vão ter filhos. - Filhos? - É. - Como você sabe disso? - Eu vi na tevê. - respondeu triunfante a menina. Como ele não sabia de uma coisa tão simples? - E como se tem filhos? Eu quero ter um também! - empolgou-se o garoto, saindo da gangorra. - Não sei. Acho que eles compram no supermercado. Mas antes você tem que aprender a beijar. - O que tem a ver os beijos com os filhos? - Eu não sei, bobo. Mas eu vi na tevê que... - Argh, deixa pra lá! Tá bom! Não quero mais ter filhos! Agora eles caminhavam lado a lado. O vento batia nas folhas das árvores, produzindo aquele farfalhar suave. O sol poente refletia a luz alaranjada na água do pequeno lago, onde alguns patos nadavam. - Você quer namorar comigo? - perguntou de supetão o garoto. - Tá bom. - respondeu naturalmente a garota. - Somos namorados, então? - É. Mas você tem que namorar só comigo. - É claro! Eu não quero outro namorado. Eles dão trabalho. E você, quer outra namorada? - Por enquanto não. Depois eu vejo isso. - E um beijo, eu ganho? O menino olhou para os lados. Não viu nenhum dos seus amigos. Bem, não devia ser tão ruim, afinal. Um monte de gente fazia aquilo todos os dias! Fechou os olhos, segurou forte a mão da garota e beijou-a na boca. Um selinho só. - Tá. Quando a gente tem filhos, então?
Escrito por Allana às 21h07
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Que enrolação absurda!
Estava hoje a aguardar o início de uma aula de Processo Trabalhista, quando uma pessoa, sentada ao meu lado, fez, meio que para si mesma, o tradicional comentário: “Caralho, Setembro já acabou!”.
Achei curioso, pois ontem mesmo estava a pensar a respeito disso. Sobre como esse ano passou rápido. E como no ano passado eu achei que o ano havia passado mais rápido que o anterior, e assim sucessivamente. Na verdade o pensamento todo começou com um simples “Putz, meu aniversário já está chegando” (oportunidade única para todos vocês que estavam apenas esperando um bom motivo para me dar um presente, hein!?), o que faz com que o “momento reflexivo” fique um tanto desvirtuado, mas creio que podemos deixar isso de lado, não?
Daí chegamos no ponto em que algum de vocês faz a pergunta fatal. Qual será o tema do texto de hoje? Falará sobre o quê? Qual a finalidade?
(Continua na próxima semana...)
Enganei vocês? Não? Bom, é que na verdade não há uma finalidade específica pra esse texto. A função dele é apenas a de ser escrito mesmo. Gerar interação autor-leitor, ou algo do tipo. Fazer com que o mês de Setembro, aquele mesmo que já tinha acabado logo no primeiro parágrafo, não passe “em branco” no Brain.Damage.
Acha que perdeu tempo lendo isso até aqui? Pois é, eu também acho. Mas já que já gastou um minuto lendo o texto, permita-me tomar mais alguns segundos. O texto originalmente ia se chamar “Setembro”, e falaria sobre a velocidade vertiginosa da vida, e de como planejamos dezenas de coisas pra todos os anos, e, no final, acabamos não fazendo nem metade do que pretendíamos fazer. Daí, me perdi totalmente. Aliás, que tipo de texto sério começa com algo como “Caralho, Setembro já acabou!”!?
Então, pouco antes de iniciar esse parágrafo, mandei o texto ainda incompleto para que alguém pudesse me dizer se estava péssimo, ou apenas muito ruim, e o comentário feito foi tão pertinente, que alterei o título do texto.
Daí você me pergunta “É só isso?”, ao que prontamente respondo “É sim”.
Porque um pouco de Nonsense nunca fez mal a ninguém.
Escrito por Jorge Cavalcanti às 00h19
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FESTA DE CAÇA
Aquela noite seria de festa, de todo jeito, mas os primos da “cidade grande” queriam aproveitar para saborear também a carne de caça, tão ao gosto daquela cidadezinha. Não bastasse gostarem normalmente de caça, aquela seria mais esperada, porque vinha matando galinhas semana sim, semana não. Pegassem o bicho (fosse guará, fosse maracajá) ou não, a noite era de comilança, e assim, todos se contentaram.
Mas de fato não houve erro, e o bicho-cachorro-do-mato, ou que diabo fosse, tinha sido pego pelos homens e já no meio da praça era fatiado em postas e se organizava o churrasco. As crianças da cidade grande queriam ver o bicho sendo pelado e fatiado, porém, pelo medo da mãe e pelo embrulho ao sangue que tinha o pai, não deixaram ver o preparo, embora depois acabassem deixando isso de lado e as crianças (uma menina e dois meninos) ficassem olhando e cutucando as postas vermelhas. A pequena, com certa maldade, ficava incitando a mãe a olhar a cabeça e as patas dianteiras do bicho, decepadas e postas no meio da praça, perto do braseiro, como troféu. Os meninos faziam o mesmo com o pai, que fingia olhar, olhando para outros cantos.
E assim foi indo, o povo festejando e a criançada (dali e de fora) doida para provar a caça. Os meninos apostando quem comeria mais, a menina pedindo um petisco cru, pra saber o gosto do bicho. “Deixa de gula, menina!” Mas qual deixar o quê! E tanto a menina abusou que o churrasqueiro (um tio ou coisa assim) lhe deu um pedaço cru e mal-salgado. “Vai ver como o gosto é ruim e nunca mais vai ser gulosa!” dizia sorrindo como quem está dando uma grande lição. E nisso, a mãe ia repreender o parente, quando ouvindo gritos, olhou para os troféus no meio da praça e deu também o seu grito, porque a cabeça e as patas do bicho eram a cabeça desfigurada e mãos de um homem. E todos se enojaram daquilo, chutando fora as portas de carne, e a mãe tentou fazer a menina cuspir fora o pedaço, mas já era tarde. E segundo se sabe, foi de comer esta carne maldita que a menina depois viria a querer a carne dos mortos e seguiu assim, por muito tempo, esse destino sombrio.
Escrito por Marinésio às 23h35
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A voz soara tão próxima do seu ouvido que a garota virou assustada, se deparando apenas com a porta recém-fechada enquanto a batida da mesma ecoava pela sala quase vazia. Uma gota de suor descia pelo seu rosto, e Rebecca bem sabia que era: medo, acompanhado da sempre presente questão: "O que diabos eu estou fazendo aqui?"
- Quem está aí?
- Então não se lembra, Lady Rebecca? - a fala foi interrompida por passos que soavam no velho assoalho de madeira. "Ótimo, pelo menos eu sei que não estou ficando louca, e tem alguém aqui. Mas... isso é bom ou ruim?", pensava a garota, enquanto os passos se aproximavam. - Devo então acreditar que não te recordas completamente, certo?
- Me lembrar...? Mas.. de quê?
- Ora, minha cara... - e então aquele que lhe falava saiu das sombras. - ... de quem você realmente é.
(continua...)
Escrito por Allana às 18h38
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Banality. Bane all (of) it.
Seus olhos miravam o casarão caindo aos pedaços. As cortinas rasgadas balançavam ante o vento que entrava pela janela de vidros quebrados e empoeirados. A tinta descascada parecia trazer a história daquele lugar.
Mesmo com aquela aparência decadente, ela sabia que havia algo mais ali. Não entendia o porquê de estar ali, mas a sua vida ultimamente não andava muito cheia de justificativas. Aqueles sonhos, aquelas visões... o que estaria acontecendo? Além do mais, qualquer lugar era melhor do que a sua casa. Mordeu o lábio inferior, confusa, e relutante, adentrou no jardim.
A grama era alta, e já escapava entre as rachaduras do cimento. Os pés da garota pisavam em algumas poças d'água da chuva recente, e não mais de uma vez ela pensou em voltar. Mas continuou, mesmo achando que era loucura. Afinal, o que poderia acontecer lá dentro? E se tivesse alguém?
Com a mão trêmula, tocou-a a maçaneta e girou-a. A porta abriu com um rangido que cortou violentamente o silêncio. A visão era difícil, graças à parca iluminação que vinha do final da rua. Viu contornos de móveis encobertos por lençóis velhos, e um piano que lhe era estranhamente familiar.
Seu coração acelerava a cada passo, e seus sentidos brincavam com seus medos. Deixou escapar um grito de medo quando a porta atrás de si fechou-se violentamente, e uma voz ecoou:
- Então finalmente veio até nós, Rebecca?
(continua... ;p)
Escrito por Allana às 20h27
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O dia amanhecia bucolicamente, de um modo quase surreal. Os raios de sol refletiam nas águas plácidas e transparentes, tão cristalinas que permitiam ver as pedras no fundo do lago. As gotas de orvalho caiam pesadamente das folhas, indo de encontro à terra molhada da leve chuva que caíra na noite anterior.
- Ok, mestre, era só dizer que o dia tinha amanhecido... - Cala a boca. Deixa eu descrever a cena.
Os pássaros cantavam, alegres com a luz do sol a banhar-lhes. Os pequenos animais da floresta saíam de suas moradas, para caçar seus alimentos para o inverno. Uma pequena lebre...
- UMA LEBRE! ATIRA NELA, ATIRA! AS LEBRES SÃO MÁS, MALIGNAS E MALÉFICAS! SÃO SERES DO INFERNO! MATEM-NA! - ... bem, uma pequena lebre.... - Eu atiro! Saco o meu arco e atiro na lebre assassina! Sim, vai dizer que você nunca viu Migthy Pyton?! É, as lebres são assassinas! - Tá bom! Você erra, e a lebre, agora irritada, parte pra cima de você numa investida no seu pescoço. E causa.... - uma pausa, e o som de dados rolando pela mesa - trinta pontos de dano. E você morre, seu arqueiro de primeiro nível maldito.
Escrito por Allana às 10h12
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CORRENTE
Pode ser que você não acredite, mas É VERDADE! Pode ser que você já tenha recebido ou participado de uma antes e nada mudou na sua vida, mas esta É VERDADE! SIM! VAMOS COMEÇAR? Muito bem: 1. Pense em uma pessoa muito especial pra você. 2. Pense num lugar que seja especial pra você. 3. Pense numa data especial. 4. Pense em três grandes sonhos que você queira realizar. 5. Pense em um número de 0 a 50.
Agora, veja os resultados... você pode não acreditar, mas... É VERDADE! 1. O nome da pessoa especial para você é http://brain.damage.zip.net 2. O lugar especial em que você pensou foi http://brain.damage.zip.net 3. Sua data especial é http://brain.damage.zip.net 4. Seus três grandes sonhos são: http://brain.damage.zip.net, http://brain.damage.zip.net, http://brain.damage.zip.net. 5. O número em que você pensou foi http://brain.damage.zip.net.
Agora, para realizar seus desejos, deixe uma mensagem na página http://brain.damage.zip.net, e envie esta corrente para mias uma centena de pessoas, que deverão deixar suas mensagens em http://brain.damage.zip.net! Se você deixar sua mensagem e fizer com mais uma centena de amigos, parentes ou inimigos, não importa, acessem e deixem mensagens em http://brain.damage.zip.net, você realizará não apenas três, mas TODOS OS SEUS SONHOS! ISSO É VERDADE!
Se não, como toda corrente honesta e verdadeira, uma coisa muito, MUITO GRAVE E INFELIZ acontecerá na sua vida e você NUNCA, NUNCA MAIS realizará sonho algum, não porque estejamos lançando uma praga [pois http://brain.damage.zip.net, é um blog do BEM, BONZINHO e segundo alguns SANGUE BOM].... mas porque o efeito das suas maldades e abominações, seus atos vis e sua corrupção moral, como não acessar http://brain.damage.zip.net, irão destruir sua vida para SEMPRE!!!!!
Felicidades, e fique em paz! [talvez... para SEMPRE! Hahahahahahaha!]
Escrito por Marinésio às 23h22
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VOZES
“Posso falar daquela noite. O frio, o cheiro de morte, vultos conhecidos... e aquele som terrível... aquele sussurro pavoroso que vinha e enlouquecia... aquele era o som terrível que...” “Não, é mentira! Não tinha som nenhum! Esse cara é doido.” “Quem é você?!” “Nan!... que som que nada! Eu tava lá, não tinha nada disso, nem cheiro, nem som, nem nada, isso aí é piração, pô...” “Mas, quem diabos é você?” “Olha, ele tem razão. Eu também tava lá e vi e não tinha nada disso. Olha, é feio esse negócio de ficar mentindo.” “Mas!!! E você? O que é que vocês estão fazendo aqui?!” “Não... é que é lasca, pô! Frio e cheiro e som não sei o quê... ah, deixa de brincadeira, pô...” “Mas, de onde vocês dois vieram?” “Ei, eu sinto muito, mas eu também tava lá e os dois tão certos. Não tinha nada disso que você tá dizendo.” “Era o que faltava!! E você? QUEM – É – VO – CÊ?” “Gente, numa coisa ele tem razão: tinha um barulho... mas era a velha gorda.” “Ah, meu Deus! De onde veio essa moça?? De onde vocês vieram?” “Os quatro vieram do mesmo lugar que eu e você... todo mundo tava lá... e você mente, hein? Eita cara pra mentir!” “Mas tinha o barulho, né, gente? Não era a velha gorda?...” “Quem é você, minha filha? Quem são vocês?” “Ó só... eu tava olhando ali o pessoal falando, mas não agüentei e entrei nessa também...” “Outro?!!!” “É... seguinte, só tinha a velha gorda, bicho, o resto era mentira tua...” “Mas... quem...” “Não tem quem, nem meio quem! Todo mundo pro camburão!” “Cambu...” “Ou entra ou vai tudim pro cacete! Vamo! Vamo! Vamo!” “Delegado... o senhor acha que cabe?...” “Mané, cabe, rapá! Mané cabe! Tem que caber! Vai, bota tudim lá!” “De-delegado?!... camburão?! Mas que raio de história é essa?!”
Escrito por Marinésio às 23h48
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Porque eu não sei dar títulos parte 2/?
Logo eles chegaram. Os rostos escondidos nas sombras. As roupas pretas quase imperceptíveis nas altas horas da noite. Nada mais clichê e previsível. Ouviu os gatilhos sendo preparados. Seria aquele o último som que ouviria na sua vida?
Bang! Bang! Bang!
Fechou os olhos com força ante os barulhos altos dos três tiros seguidos. Esperava sentir as balas perfurando-lhe a carne, o sangue escorrer quente pelso ferimentos, e se perguntava se seria capaz de cair no chão ainda vivo. Demorou alguns segundos para perceber que não havia sido atingido. Abriu os olhos, e deparou-se com a melhor das surpresas aquela noite.
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- Hum, meio clichê, não acha?
Marcelo fingiu não ouvir o comentário da amiga, mas já perdera o fio da meada. Disfarçando inutilmente um tom chateado, ainda olhando para a tela, ironizou: - Oh, senhora musa inspiradora, aquela que conhece todos os segredos das mentes criativas, rainha dos escritores frustrados... - Pode reclamar sem rodeios. - interrompeu a garota, enquanto retirava um livro de prateleira, finginfo interesse. - Ei, você não havia me dito que comprou o novo romance da série de Dragonlance. - É porque eu não li ainda. Mas se quiser... Ei! Voltando ao texto, você tem alguma idéia revolucionária e super original, Aline? - Não, o escritor aqui é você. Eu só leio e digo se está bem ou ruim. - respondeu secamente a garota, pondo o livro de volta no lugar, mas em seguida retirando-o. - Pensando bem, eu acho que vou levar. Deve ser melhor que o seu detetive.
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- Achei que você estivesse precisando de ajuda.
A voz dela parecia descer suavemente aos seus ouvidos. Ela usava um sobretudo claro, preso por uma fita e botas de cano longo, num tom mais escuro, Seus cabelos ruivos balançavam ao vento, enquanto ela guardava sua arma num bolso interno da roupa.
- Bem, a ajuda foi mais que bem vinda. Mas diga, o que faz aqui? Não é como se você tivesse parado para ajudar uma velhinha a atravessar a rua.
- Digamos que eu fiz a minha boa ação do dia, agente. Agora tome mais cuidado, E dê uma revisada nos mapas da cidade.
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- Rá, boa resposta! Marcelo, você realmente sabe como criar coadjuvantes legais! Nunca pensou em roteirizar, e desistir da carreira de escritor de blogs? - Você não tinha ido embora? - Não, agora eu quero saber como acaba.
Escrito por Allana às 19h39
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PRAGUEJADOR
O homem era um carreiro, que para os que não sabem, é quem conduz carro de boi. Trabalhava nos arredores do lugar e era um velho conhecido do povo por seus modos grosseiros, suas artes de praguejar, mesquinhez, dureza de coração e disposição inigualável para o trabalho, de sol a sol, de domingo a domingo, ao som do ranger inconfundível das rodas de seu carro.
Bem, o que o aconteceu foi num fim de tarde, depois de um frete que o tinha irritado muito. O preço pago não foi o acertado, o tempo de espera foi maior que o combinado, e ele ainda teve de deixar acertado pagar o conserto de um muro arrebentado pelo seu carro de boi, mas por culpa do homem que contratou seu frete. Enfim, foi um dia ruim e ele voltava mais praguejador, mais odioso que nunca. Pobres dos bois, já velhos e marcados de suas lapeadas, e do molequinho que o ajudava tinha uns dias, porque já ele não enxergava muito bem e à noite o moleque era sempre útil nos caminhos de volta.
Mas ia nisso, e era “Diabo!” pra lá, “Inferno!” pra cá, e “Cão!” e “Peste1” e “Praga!” e todo o seu repertório. E tome lapeadas nos lombos dos bois, tome tapas na cabeça do moleque se ele dizia um “ai” de dó pelos bichos. Nada porém, de acalmar a ira do carreiro que ia jurando mil maldades dos infernos para descontar no homem do frete. Nisso, passando uma ponte que se espichava preguiçosa sobre o riozinho da cidade, um dos bois parou e outro parou em seguida com um mugido (ou por solidariedade, ou pelo cansaço e a dor nos lombos). “Diabo! Diabo! Se mexe, cão!” e tome no lombos dos bichos, com tanto gosto que o menino fechou os olhos e sentiu um aperto no coração. “Anda, diabo!” mas sem terminar a lapeada, como que do meio do rio, ouviu-se um barulho de águas: o menino abriu os olhos e já via a sombra se levantando do fundo e o carreiro dizendo alguma coisa de susto, e se ouviu uma frase como um “Quem chama, quer conhecer!”.
Foi então que se precipitaram as coisas, e carro e carreiro foram puxados pelo bicho, o tal do Coisa-ruim, e despencaram da ponte, com boi e tudo e só o moleque num salto escapou, caindo sobre os lastros da ponte, ouvindo ainda uns gritos do carreiro. E quando se ergueu, só viu os bois se levantando, e indo pra margem. Correu pra cidade, que era pertinho, e voltou com uns homens. Mas não tinha nada. O rio dava na cintura de um homem e não tinha nem traço de carro de boi, nem corpo de homem, nem sangue, nem nada. Só a ponte lá, com a lateral quebrada, e os bois descansando na margem, criaturinhas de Deus.
Nunca se achou nada, mas fato é que ainda hoje, quando passam em fim de tarde, ouvem o ranger das rodas do carro, como que vindos do fundo da terra. O ranger das rodas, o som de lapeadas e gemidos de homem, como se o carreiro tivesse virado boi para o chicote do diabo.
Escrito por Marinésio às 23h02
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